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Zoom | Cinema | Eu Não Sou o Teu Negro | Raoul Peck

2017-06-22 21:30 22:45
Teatro Gil Vicente | | Barcelos
3,5€ GERAL | ENTRADA LIVRE SÓCIOS

Em 1979, o poeta e ensaísta James Arthur Baldwin (1924-1987) iniciou "Remember This House", um trabalho biográfico sobre Medgar Evers (1925-1963), Malcolm X (1925-1965) e Martin Luther King Jr. (1929-1968), os três maiores líderes negros da década de 1960 nos EUA, todos eles assassinados. A obra analisava a história do racismo, assim como o tratamento dado às minorias em território norte-americano. Baldwin morreu de cancro do estômago antes de a finalizar. O manuscrito inacabado foi confiado ao realizador haitiano Raoul Peck que, combinando textos e imagens de arquivo em que o autor expôs os seus pensamentos, decidiu fazer um documentário sobre o tema. Narrado pelo actor Samuel L. Jackson, "Eu Não Sou o Teu Negro" é uma reflexão sobre as lutas históricas pela igualdade de direitos e a forma como o tema se mantém actual e pertinente no contexto do século XXI. Estreado no Festival de Cinema de Toronto (Canadá), foi nomeado para o Óscar de Melhor Documentário. PÚBLICO

"O grande choque, conta James Baldwin no texto lido em off por Samuel L. Jackson, aconteceu no momento em que percebeu que, apesar de se identificar com o herói Gary Cooper, o herói não se identificava com ele – e que portanto ele, “índio”, negro, não-branco, era o inimigo. A virtude maior do filme de Raoul Peck sobre o legado de Baldwin é saber pegar nas questões de imagem e de representação (dos negros americanos) e dar-lhes um sentido, material e documental, que às vezes é um pouco mais do que meramente ilustrativo.

A representação cultural precede a representação política, e as palavras combativas de Baldwin voltam insistentemente a este ponto – contar a história dos negros americanos, antes e depois do movimento pelos direitos cívicos, é contar a história de um segmento da população que, durante décadas (ou séculos), não teve direito, pelo menos a uma escala massificada, à auto-representação. Viveu com imagens criadas por outros, retratos de “criaturas que existem apenas na imaginação dos brancos” (dixit Baldwin), sem um espelho (o outro choque, diz Baldwin, é por volta dos cinco anos, quando “o negro percebe que não é branco”). Se o diálogo é ainda impossível, ou pelo menos muito difícil, é porque o “negro” é uma “invenção do branco”, ouvimos ainda nas palavras de Baldwin, possuidoras de um eco singularmente godardiano (quando o franco-suíço fala, por exemplo, da Palestina como uma “projecção” de Israel).

Não espanta, pois, que para além das fortíssimas e complexas palavras de Baldwin (que o filme, na locução sóbria de Jackson, restitui sem pedagogia nem floreados), boa parte de Eu Não Sou o teu Negro repouse em imagens – imagens do cinema clássico americano (“reflexo de um mundo racista” mais do que entidade especialmente racista, como Baldwin frisa), imagens da publicidade, retratos falsos, fantasiosos, ofensivos.

E depois, o seu contracampo, os mártires (os três amigos que estão na base do texto de Baldwin: Medgar Evers, Martin Luther King e Malcolm X, todos assassinados), os humilhados, os linchados, os cadáveres que são cadáveres por nenhuma razão para além de serem negros. Peck encontra as imagens que sustentam o texto de Baldwin, ou com que o texto de Baldwin dialoga, e por vezes, somando dois mais dois, vai um passo em frente; como naquele momento, perto do final, em que o texto de Baldwin comenta que o mundo representado pelo rosto de Doris Day nunca foi realmente confrontado com o mundo representado pelo rosto de Ray Charles, e Peck faz suceder a um plano do rosto choroso de Doris Day, como um contracampo imaginário, o documento fotográfico de um negro sumariamente enforcado num tronco de árvore.

Amplamente documentado, e com muitas imagens de intervenções públicas e televisivas do próprio Baldwin, montado com dinamismo, Eu Não Sou o teu Negro é uma peça importante para se perceber um pouco melhor o que raio se passa, o que raio ainda se passa, na América destes dias."


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