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Zoom | Cinema | Ciclo Isabelle Hupert - O que está por vir | Mia ...

2017-03-30 21:30 23:10
Teatro Gil Vicente | | Barcelos
3,5€ GERAL | ENTRADA LIVRE SÓCIOS

Nathalie Chazeaux é professora de Filosofia num instituto de Paris (França), onde vive com o marido e os dois filhos. A sua grande paixão é o ensino, ajudando cada um dos seus alunos a pensar e a encontrar o seu lugar no mundo. Tudo lhe parece perfeito até ao dia em que o marido lhe pede o divórcio. Apesar do inevitável choque inicial, ela percebe que este pode ser o momento por que tanto esperava. Com 55 anos e uma enorme vontade de se renovar, Nathalie aproveita aquela sensação de liberdade para recomeçar, dando início a uma nova forma de existência. Com realização e argumento de Mia Hansen-Løve ("O Pai das Minhas Filhas", "Um Amor de Juventude"), um filme sobre recomeços que conta com Isabelle Huppert, André Marcon, Roman Kolinka e Edith Scob, entre outros. PÚBLICO

Os Xutos & Pontapés têm uma canção chamada “Futuro que Era Brilhante” sobre o desencanto quando olhamos para tudo aquilo que ficou para trás. Parece-nos bem que é assim que se sente às tantas Nathalie, a heroína nominal de O Que Está por Vir. Professora de filosofia, realizada, casada, com dois filhos já feitos, directora de uma credenciada colecção de ensaios, é o modelo da média burguesia intelectual francesa que viveu os radicalismos do Março de 1968 e pugnou pelo estado social. E, num momento em que a contestação ao sistema voltou à superfície, eis que a sua vida se desmorona: o marido revela-lhe que a vai trocar por outra, a mãe tem de ser levada para um lar, o futuro da colecção que dirige e do próprio manual escolar de referência que escreveu está em risco. Andei eu a lutar tantos anos e agora dou por mim aqui?, pergunta-se Nathalie, e Mia Hansen-Løve propõe-nos acompanhar a surda crise de meia-idade de uma intelectual burguesa que acreditou que o futuro ia sempre estar ali ao alcance, e descobre que afinal não, e que não há filosofia nem pensamento que ajude. Claro que, como Nathalie é Isabelle Huppert, a coisa ganha logo outro nível: aquela que estamos cada vez mais próximos de achar a maior actriz contemporânea não se preocupa se a sua personagem é simpática ou uma chata de primeira ou as duas ao mesmo tempo. O que lhe interessa é fazer-nos sentir porque é que ela é assim, fazer-nos ver as fraquezas e emoções que a fazem mexer. E Huppert encontrou em Mia Hansen-Løve uma espécie de alma gémea: a realizadora tem apostado em construir os seus filmes no sussurro e na discrição, através da acumulação de detalhes aparentemente anódinos que revelam lentamente um retrato impressionista, delicado, de personagens apanhadas nos momentos marcantes da sua vida. É um cinema que tem vindo a crescer quase imperceptivelmente ao longo dos anos, mas que atinge em O Que Está por Vir, a quinta longa da realizadora e argumentista, o seu ponto mais alto até hoje. É um filme, literalmente, em estado de graça, encontro luminoso entre uma actriz e uma cineasta à volta de uma mulher que tem de redescobrir o seu lugar no mundo. Talvez o que mais nos agrada neste melodrama de uma modéstia transcendentemente segura seja a sua recusa total de modernismos gratuitos ou truques desnecessários. Hansen-Løve está fartinha de saber que os momentos-chave da nossa vida não se anunciam à distância e só à posteriori é que os reconhecemos; por isso ela filma os “tempos mortos” como se fossem essenciais, e encontra na entrega de uma radiosa Huppert a esta mulher perfeitamente normal a centelha necessária para que o seu cinema suba ao patamar seguinte. Nathalie, de certo modo, somos todos nós; o que estas duas mulheres fazem, juntas, é explicar-nos porquê.

JORGE MOURINHA | PUBLICO


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